sexta-feira, 6 de março de 2009

BRASIL FATAL: CAZUZA (1958-1990)


A INFLUÊNCIA
“Melhor 10 anos a mil à hora do que mil anos a 10 à hora”, Cazuza disse-o. E foi assim que o cantor viveu.
Cazuza, pelo trabalho nos Barão Vermelho e a solo, foi tido como “o maior poeta da sua geração”... Uma geração de admiradores do rock & roll anglo-saxónico e do tropicalismo que, no início dos anos 80, tinha vontade de mudar as coisas num Brasil amarrado a uma ditadura militar.

Enquanto vocalista e letrista, formou com o guitarrista e amigo Roberto Frejat uma das duplas mais históricas da música do país, núcleo central daquele foi para muitos o combo mais perfeito do rock brasileiro, com o teclista Maurício Barros, o baixista Dé e o baterista Guto Goffi nas fileiras da primeira formação dos Barão Vermelho (que durou até 1985).

Em 1981, quando os Barão Vermelho estavam a realizar os primeiros ensaios, faltava ainda um vocalista. Roberto Frejat e companhia escolheram Léo Jaime para o posto que, depois de ver Cazuza a actuar num grupo teatral, preteriu a proposta. Sugeriu Cazuza, claro. E tinha toda a razão.

Quando os Barão Vermelho viram em Cazuza não só um fantástico performer, mas também um sobredotado letrista, não hesitaram. A banda deixava imediatamente o formato das covers, e passava a tocar composições originais. E iniciava-se uma das mais fascinantes aventuras no rock brasileiro, com Cazuza e Frejat ao leme do Barão Vermelho.

Roberto Frejat e restantes músicos tinham a estrutura, e o animal de palco efusivo Cazuza possuía a fúria de viver típica do seu grande ídolo James Dean. A combinação de blues com hard-rock dos Barão Vermelho era singularizada pelo espírito solto e optimista de Cazuza. Caetano Veloso, sempre com o radar ligado, não calou a sua revolta ao ver a qualidade de uma banda como os Barão Vermelho a ser ostracizada pelas rádios. Mas as coisas mudariam...

No dia 15 de Janeiro de 1985, quando o sol da democracia iluminava de alegria o Brasil com a eleição de Tancredo Neves, os Barão Vermelho e Cazuza tiveram uma das suas maiores jornadas de glória no Rock in Rio quando se tornaram na primeira banda nacional a “pegar de caras” um público metaleiro com outros humores.

Pouco tempo depois, Cazuza deixa os Barão Vermelho com um legado de três álbuns de referência - “Barão Vermelho” (de 1982), “Barão Vermelho 2” (de 1983) e “Maior Abandonado” (de 1984) - e um reportório invejável composto por hinos como ‘Codinome Beija Flor’, ‘Pro Dia Nascer Feliz’ ou ‘Bete Balanço’. A carreira a solo corre-lhe ainda melhor, sobretudo em termos de reconhecimento do público e de vendas, através dos álbuns “Exagerado” (de 1986) e, sobretudo, “Independência” (de 1988). Também para a memória do público fica o dueto com Gal Costa em ‘Brasil’ (tema principal da telenovela” Vale Tudo”, também exibido em Portugal no final dos anos 80, no horário de maior audiência, que no genérico é só interpretado por Gal).

A MORTE

Eram muito grandes as semelhanças faciais de Cazuza com o actor de novelas brasileiro Lauro Corona (que pudémos ver em Portugal, em meados dos anos 80, em telenovelas como “Corpo a Corpo”, no horário nobre de jantar, ou “Vereda Tropical”, à hora de almoço), que, curiosamente, morreu com a mesma idade, 32 anos, com a mesma causa de morte, sida.

Mas o ar saudável do músico tinha os anos contados desde os dias em que, em 1985, teve uma febre alta. O diagnóstico decretava uma infecção bacteriana. Cazuza não perdeu tempo e pediu para fazer o então impreciso teste do HIV que deu negativo. Mas três anos depois deu positivo. Assim que soube, Cazuza convocou uma conferência de imprensa a dar a notícia, iniciando um bravo combate contra o preconceito da doença no Brasil que se tornou exemplar.

Aquando do sucesso do período de “Independência”, em 1988-89, Cazuza não tem pudores em exibir o seu rosto e corpo magros e transfigurados. A doença estava espelhada na cara, a decadência física era evidente e Cazuza já não conseguia ser o vivaço de palco de outrora.

A degradação física de Cazuza continua, e já 1989 ia avançado quando o cantor faz alguma aparições públicas de cadeira de rodas e de lenço na cabeça. Mesmo assim, ao seu estilo, mantém a sua elevada capacidade de trabalho e grava com a voz muito debilitada o álbum “Burguesia”, conjunto de canções que fazem um testemunho impressionante e revoltado sobre “o trem da morte que se aproxima” (citando a canção ‘Cobaia de Deus’).

Cazuza subumbe à doença no dia 7 de Julho de 1990, no apartamento dos pais, no Rio de Janeiro, onde vivia há três meses desde que tinha regressado de mais um tratamento nos Estados Unidos. Eram 7 da manhã, estava o cantor ainda a dormir. O pai, o produtor musical João Araújo, confirma à imprensa, no prédio de sua casa, a notícia. A família, amigos e muitos fãs imediatamente acorrem à capela onde está o corpo.

Os ex-companheiros dos Barão Vermelho carregam o caixão no dia de enterro. Cazuza é sepultado no Cemitério João Batista, no Rio de Janeiro, muito próximo de outras lendas musicais como Carmen Miranda e Ary Barroso.
Texto que faz parte do especial Brasil Fatal, publicado no Cotonete.

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