A excitação desta semana reduz-se a um tema: a fabulosa versão de Beck ao original de Bob Dylan, Leopard-Skin Pill-Box Hat, para a compilação humanitária War Child Presents Heroes. Pode ler aqui artigo desenvolvido para o Cotonete.
Angel Corpus Christi – White Courtesy Phone (Almo, 1995) Dificilmente Lou Reed poderia imaginar uma descendente tão optimista quanto a acordeonista Angel Corpus Christi. Mas facilmente imaginamo-la a cantar de sorriso largo nos lábios. White Courtesy Phone é um dose cheia de bons espíritos, letras inteligentes e uma pop avant-garde invulgarmente prática para o ouvido. Desconfia-se que o mundo não teve barriga cheia para consumir este disco. Por onde andará agora Angel Corpus Christi a espalhar os seus bons ares? 3 músicas a ouvir: “John Cassavetes”, “Big Black Cloud” e “Fall”.
PS – Lista paralela aos 100 Melhores Álbuns dos Anos 90.
100º Stereolab - Emperor Tomato Ketchup (Duophonic, 1996) Sempre imaginei uma menina de tranças a saltar que nem uma tonta, no seu quarto, ao som de uma canção como "Emperor Tomato Ketchup", com o seu equipamento indie completo da Adidas, do casaquinho aos ténis – e o que não daria um bom anúncio para a marca das três riscas?, punha-me eu então a pensar. Quem é que podia fazer na altura viagens espaciais de recortes tão desmesuradamente poppy, com moogs foliões à solta, mensagens esquerdistas por cima de títulos tão artisticamente técnicos e ainda com um delicioso sotaque afrancesado no comando de um coro de sereias feminino tão docilmente corporativista?... Os Stereolab caíam de lado nenhum, sobretudo em Emperor Tomato Ketchup. 3 músicas a ouvir: “Emperor Tomato Ketchup”, “Les Hyper-Sound” e “Motoroller Scalatron”.
99º Man or Astro-Man? – Experiment Zero (Touch and Go, 1996) Filhos da ostentação espacial dos Devo, netos da coreografia surf-music de Dick Dale, sobrinhos da loucura psycho-billy dos Cramps, as suas naves fizeram maior estrondo aquando de Experiment Zero. E não me venham com histórias, aquela locomoção tão frenética e maquinal daquelas quatro figuras de BD em palco não era nenhuma magia inter-galáctica, nem nenhum efeito especial devedor de algum filme sci-fi de série B, aquilo vinha do poder do rock & roll. 3 músicas a ouvir: “Anoxia”, “Evil Plans of Planet Spectra” e “9 Volt”.
PS – Lista pessoal elaborada em Abril e Maio de 2009.
Vou iniciar uma maratona que sabe-se lá quando vai acabar. Atrever-me-ei a enumerar os 100 melhores álbuns de cada uma das últimas décadas: 00s, 90s, 80s, 70s, 60s e ainda os 100 melhores discos, incluindo compilações, da música publicada até 1959. Terei que começar pela última década que acabou, a dos anos 90. Serei fastidioso, lento, paradoxal, datado, subjectivo, mas também apaixonado. Através de uma contagem decrescente do 100º para o 1º, e de uma pasta não-secundária de Relíquias, deixarei escritas as minhas impressões através de meras notas pessoais e mini-sinopses. Do combate entre a inclinação pessoal e a visão crítica mais fria de que se fazem estas listas, vou deixar vencer a primeira.
Seguem-se outras excitações, alinhadas por ordem decrescente de rendição...
Arbouretum, Song of the Pearl(Thrill Jockey, 2009) Com uma proximidade cavernosa a contemporâneos como os indie rockers canadianos Black Mountain, os Arbouretum fazem do seu mais recente álbum uma obra de grunge em câmara lenta, como se a densidade grave de bandas como os Soungarden ou os Alice in Chains tivesse passado pelas mãos de uns mais harmoniosos e desacelerados Crosby, Stills, Nash & Young.
O líder deste quarteto de barbudos da montanha é o guitarrista Dave Heumann, equipado divinamente por um instrumento precioso nas cordas vocais que lhe dá aquela grandiosidade melódica que abençoa Eddie Vedder, dos Pearl Jam, ou Mark Lanegan, ex-Screaming Trees. A voz de Heumann é uma luz para o fascinante ponto de intercepção entre doom e americana dos Arbouretum.
Este álbum é um delicioso arrebatamento de ex-corredores de asfalto por um tractor.
Bill Callahan, Sometimes I Wish We Were an Eagle(Drag City, 2009) O "segundo álbum a solo" (sim, merece aspas), "Sometimes I Wish We Were an Eagle", tem como razão principal para não ser esquecido o reforço do arranjo de cordas que acentua o dramatismo bucólico da música de Bill Callahan.
Claro que Callahan continua um Nick Drake das pradarias americanas e um herdeiro legitimado da country contemplativa de Townes Van Zandt, carregando com aquele borburinho da batida dos Velvet Underground sempre algures. Mas agora ele é um compositor que merece a consideração de uma nova força sublime, mais numerosa: um combinado épico de violinos, violoncelos e trompas que enrolado no seu combo rock causa ainda mais estilhaços nas almas melómanas.
Como vai sendo tradição em Bill Callahan, "Sometimes I Wish We Were an Eagle" promove o que há de melhor e de mais imprevisível na música: os contrastes. Este é um álbum tão monocórdico e tão multi-direccional. Tão (ilusioramente) chato e tão charmoso. Tão repetitivo e tão criativo. Tão arrebatador e tão contido. Tudo, comoventemente, ao mesmo tempo.
PJ Harvey & John Parish, A Woman A Man Walked By (Island, 2009) Volta e meia, no meio dos seus trajectos individuais entre a agitação citadina das grandes metrópoles ocidentais e a calma do mar inglês de Dorset (do sudoeste da ilha), PJ Harvey regressa ao seu porto de abrigo: o amigo e parceiro musical de há muito John Parish. Como se procurasse um conselho, um momento de meditação, junto de alguém que tão bem a conhece.
Parish, como o amigo confidente, e sempre solicito, diz-lhe então o que pensa. Através de pequenas notas (musicais). Retoma-se assim, 13 anos depois, o método de outro álbum, "Dance Hall at Louse Point", que os uniu em co-autoria: John escreve as pautas, Polly Jean trata das letras; John é o músico, Polly a intérprete.
Mas "Dance Hall at Louse Point" e "A Woman A Man Walked By" são álbuns muito diferentes. O primeiro é uma linha contínua que faz de cada faixa uma peça ao serviço de um puzzle. O segundo parece um vôo picado ao passado de PJ Harvey, sobretudo aos álbuns que escaparam às mãos de John Parish, como se o músico lhe quisesse segredar dicas do que a cantora devia ter feito.
John Parish é o ponto de apoio, mas a estrela, a fogosa, é PJ Harvey. Quando as composições são da cantora, têm um brilho desmedido. Nas mãos de John Parish, as músicas têm uma qualidade um bocadinho mais normal. Porém, que fique claro, "A Woman A Man Walked By" tem substância quanto baste para convencer qualquer fã de PJ Harvey. A cantora trata-se bem.
Com sete anos e um difícil EP de existência, lá assentaram arraiais num estúdio para gravar o seu primeiro longo, "Tasca Beat: Sonho Português". Tal como os Deolinda, desdramatizam o peso melancólico da música portuguesa, despindo o fado das formalidades de bons fatos e democratizando-o a gente com outra formação. Em 14 músicas de folia pop mestiça, os OqueStrada conseguem ser uns Fairground Attraction à portuguesa e uns Mler Ife Dada mais vadios.
São até mais plurilingues que qualquer Papa (usam português, crioulo, castelhano, francês, inglês), abrem ares a trompetes de alguma companhia em algazarra, e a vocalista Miranda ainda arranja tempo para cantarolar um esboço de 'Dancing with Myself' de Billy Idol. Fica tudo bem nesta alegre misturada.
A própria instrumentação é o reflexo de uma rebeldia autónoma. João Lima, o homem da guitarra portuguesa, numa boa atitude taberneira, é pessoa para fazer percussão com a cadeira e um copo. E o bricoleiro Pablo inventou a contra-bacia, uma espécie de contrabaixo comprado na loja dos trezentos, constituído por um balde, uma corda e um cabo de vassoura.
Esta música bairrista almadense, de pop que recria os tempos do namoro à janela, deu-nos aquele que é até ao momento o melhor álbum nacional do ano. (2009)
Quando um DVD de música é bom demais, a sua autoria não se pode restringir aos artistas/sujeitos do objecto. E quando assim é, o mentor por trás das câmaras merece a divisão dos louros na lombada do produto. É o caso do fascinante documentário de 70 minutos "Miroir Noir". O DVD é sobre os Arcade Fire mas não é só dos Arcade Fire. É também do seu realizador, Vincent Morisset.
Se há banda visualmente interessante que merecia ter DVDgrafia, já se sabia, ela chamava-se Arcade Fire. A forma individual como cada um dos sete membros da banda se expressa em palco, contribuindo para a ribalta não se limitar ao protagonismo do líder (no caso, Win Butler), é matéria fascinante para qualquer realizador. O curioso e o invulgar desta banda é ver que cada um desses contributos, ao seu estilo, se dirige para uma coesão militarizada que recruta, muito voluntariamente, cada membro do seu público para o acto épico da banda. Não são só os sete ou oito músicos em palco a cantar em uníssono; os coros dos Arcade Fire estão numerados segundo a lotação do recinto onde tocam.
Mesmo se se usasse um método quadrado de se filmar apenas o que se passa em palco, os resultados finais nunca poderiam sê-lo porque a banda é só por si um caso de estudo e de catarse. Porém, e como seria de esperar, Vincent Morisset e os Arcade Fire quiseram elevar a fasquia e procuraram um ângulo completamente diferente para Miroir Noir, bem mais exigente.
O documentário é um medley de mais de uma hora, de recortes, que circula à volta da música dos Arcade Fire, em especial de todo o álbum "Neon Bible". O DVD é um carrossel em rotação contínua que apanha bocados soltos das 11 músicas do segundo álbum da banda de Montreal nas mais variadas situações: a gravação da vocalização de Win Butler no exterior da igreja que os Arcade Fire compraram ('Keep the Car Running'); 'Ocean of Noise' cantado por Win Butler e a sua mulher Régine Chassagne numa suíte do hotel com panorâmica para uma cidade estrelada por milhares de luzes; 'Neon Bible' tocado num elevador por todos os apertadinhos músicos do grupo, com Richard Reed Parry a fazer percussão com o rasganço de uma revista; ou o final arrebatador de 'No Cars Go' num coliseu qualquer onde apetecia estar. A multiplicação de cenas insólitas, que estimulam os sentidos todos e um mano-a-mano entre imagens e sons, faz de "Miroir Noir" a mais bela ode a um álbum que um filme já fez.
Mas despreocupem-se os fãs mais acérrimos do álbum de estreia "Funeral", o idílio de "Miroir Noir" também passa vista a alguma da colheita dessa obra-prima do indie-rock (como 'Haiti', 'Power Out' ou 'Rebellion (Lies)', e não só ('Cold Wind', composto para a série de TV "Sete Palmos de Terra", sonoriza uma das travessias de asfalto do filme). Há momentos em que desejamos não ouvir um som tão abafado naquela cena; em que rogamos pragas contra aquele corte abrupto da nossa parte preferida daquela música; ou que lamentamos não ver melhor determinado performer numa certa interpretação ao vivo. São pequenas contrariedades de uma opção visual mais oblíqua que nos dá o essencial com muito mais clareza: as vibrações enérgicas da banda e a força nuclear do harmonioso casal Win Butler & Régine Chassagne em todas as decisões dos Arcade Fire.
"Miroir Noir" é um deslumbramento sonoro e visual que dá a Vincent Morisset aval de cineasta. E que eterniza uma fase recente de hiper-criatividade da banda, que se testa a si mesma com interpretações nos mais variados contextos (da rua ao elevador, da arena de uma sala à capela). Grandioso.